Tânia Laranjo recorreu às redes sociais para dedicar uma publicação sentida a Alexandre Quintas, o padeiro alentejano que encontrou Zacharie e Barthelemy abandonados junto à estrada em Alcácer do Sal e os levou para casa sem hesitar. A jornalista da CMTV — que acompanhou de perto o caso — não conseguiu ficar indiferente ao gesto do homem que o país elegeu como herói da semana.
A publicação começa com uma reflexão pessoal sobre a profissão antes de chegar ao tema central, e rapidamente se tornou num dos textos mais partilhados e comentados nas redes sociais sobre este caso.
Tânia Laranjo abriu a publicação com uma confissão sobre o cansaço e o amor que coexistem na sua relação com a profissão. “Há dias em que não sei se trabalho demais ou se simplesmente tive o péssimo hábito de transformar aquilo que amo numa profissão”, escreveu, antes de desenvolver o pensamento com uma imagem que qualquer jornalista reconhecerá.
“Se uma criança de cinco anos me perguntasse o que faço, ainda respondia sem hesitar: conto histórias. E talvez dissesse baixinho: às vezes, nos dias bons, até mudamos vidas; mas nos outros, sobrevivemos a cafés requentados, ao barulho constante e ao desejo muito adulto de desaparecer duas horas para um sítio com sombra, silêncio e livros suficientes para justificar a ausência.”
“Dias como estes estragam um bocado o cinismo”
Foi a partir desta reflexão que a jornalista chegou a Alexandre Quintas — e ao impacto que o seu gesto teve nela. “E depois há dias como estes, que estragam um bocado o cinismo, que também é uma forma de sobreviver. E isso apenas porque duas crianças encontraram um verdadeiro herói.”
Tânia Laranjo foi cuidadosa em distinguir o tipo de heroísmo de que falava. “Não daqueles certificados pelas redes sociais. Não foi um empreendedor da bondade com fotógrafo atrás. Foi apenas um padeiro alentejano. E pai de dez filhos — o que, por si só, já devia garantir canonização.”
O retrato que emocionou as redes sociais
A jornalista traçou depois um retrato de Alexandre Quintas que dispensou adjetivos grandiosos e foi direto ao essencial. “Um homem de mãos gastas, sono atrasado e um coração absurdamente disponível. Abraçou estes miúdos como se fossem seus. Sem protocolo. Sem pose. Sem frases feitas. Sem transformar o afeto em conteúdo. Só um homem bom. Daqueles perigosamente raros.”
E acrescentou, com a ironia que lhe é característica: “É irritante quando aparecem pessoas assim. Porque desmontam, em poucos minutos, todas as desculpas elegantes que inventámos para justificar a pressa, a indiferença e a falta de tempo.”
Tânia Laranjo fechou a publicação a assumir, sem rodeios, que este não era um dia para a objetividade jornalística. “Há histórias mais bonitas do que esta? Talvez haja. Mas hoje, sinceramente, não me apetece ser equilibrada o suficiente para admiti-lo.”




















