O abraço que veio do forno: como um padeiro acolheu dois meninos franceses abandonados em Alcácer do Sal
A rotina de Alexandre Quintas mudou drasticamente no início da noite de uma sexta-feira. “Encontrei dois meninos franceses abandonados na beira da estrada”, foi o desabafo que fez por telefone à esposa, Carla. O susto inicial, no entanto, logo deu lugar ao cuidado. Alexandre acolheu as crianças e levou-as para a padaria do casal, em Alcácer do Sal, transformando o balcão de trabalho num porto seguro provisório.
Em entrevista à CMTV, Carla recorda como o ambiente tenso se transformou rapidamente. “Quando cheguei [à padaria], eles já estavam bem. O mais velho estava encantado a ver o meu marido trabalhar”, conta, lembrando o contraste entre o trauma do abandono e o calor do forno de pão.
Uma ponte de afeto e tradução
Sem falar português, os dois irmãos — que passaram cerca de cinco horas sob a proteção do casal — só conseguiram comunicar graças à ajuda de uma amiga do filho mais velho dos padeiros. Foi ela quem serviu de intérprete entre as crianças e a Guarda Nacional Republicana (GNR).
“A primeira vez que a ouviram falar francês, pensaram que era a mãe”, recorda Alexandre.
Foi através dessa conversa que a história por trás do abandono começou a revelar-se, com contornos cruéis: os meninos contaram que tinham sido deixados no meio do mato sob o pretexto de uma “caça ao tesouro” para encontrar um brinquedo.
Apesar da gravidade da situação, a inocência da infância falou mais alto em alguns momentos. “Brincavam muito, houve uma altura em que perderam um bocado a noção daquilo que tinha acontecido”, relatam os comerciantes. Durante todo o tempo em que estiveram na padaria, os rapazes nunca mencionaram outros familiares além da mãe e do padrasto.
Marcas no coração e o desejo de justiça
O caso avançou para as instâncias judiciais, levando a mãe das crianças a ser ouvida no Tribunal de Setúbal. Questionada sobre o que diria à mulher, Carla confessa que tentaria compreender o que motiva um “ato de loucura” como este. Já Alexandre é categórico e não esconde a indignação: “Não lhe diria nada. Espero que fique presa muitos anos.”
O impacto emocional daquela noite deixou marcas profundas no padeiro. Visivelmente emocionado, Alexandre detalha que criou uma ligação forte, especialmente com o irmão mais velho. O menino chegou a ficar visivelmente nervoso com a chegada das autoridades, mas encontrou o reapego e a calma nos braços de Alexandre.
“Espero voltar a vê-los. Se ficar sem informações deles, vou procurá-los”, confessa o padeiro, que agora torce para que as crianças sejam entregues a um membro da família “que lhes consiga dar amor”.
Pelo ato de humanidade e cidadania, Alexandre Quintas foi distinguido como ‘Herói CM’ pelo Diretor-Geral Editorial da MediaLivre, Carlos Rodrigues. No entanto, para os dois meninos franceses, o maior prémio foi mesmo o teto e o carinho que encontraram numa noite escura na beira da estrada.


















